Foguete brasileiro fará experiências em microgravidade
Cinco anos após o acidente que tirou a vida de 21 técnicos e destruiu o foguete VLS, a base de Alcântara, no Maranhão, está pronta para o lançamento do foguete VBS-30, um foguete de combustível sólido desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) em cooperação com a Agência Espacial Alemã (DLR).
Experiências em microgravidade
A bordo do VBS-30 estarão nove experimentos científicos, feitos por diversos centros de pesquisas brasileiros. A carga útil tecnológica, pesando 400 kg, será separada do segundo estágio do foguete, e deverá permanecer cerca de seis minutos acima da altitude de 110 km – uma das condições para se realizar experiências em ambiente de microgravidade.
A operação foi batizada de Cumã II. A missão Cumã I, realizada em 2002, fracassou depois de uma perda de contato com o módulo de carga útil já durante a reentrada. Todos os experimentos científicos foram perdidos. O lançamento da foguete está previsto para amanhã, 11 de julho.
Foguete de sondagem
O foguete de sondagem VSB-30 é um foguete de dois estágios, que tem por objetivo transportar cargas úteis científicas e tecnológicas, de até 400 kg, para experimentos na faixa de 270 km de altitude. Para experimentos em ambiente de microgravidade, o VSB-30 permite que a carga útil permaneça cerca de seis minutos acima da altitude de 110 km.
Os dois estágios do VBS-30 são equipados com propulsores sólidos, que permitem que o foguete atinja uma velocidade de até 2.000 m/s (Mach 6,9). A altitude máxima atingida, chamada de apogeu, é de 276 km. O tempo de permanência em ambiente de microgravidade é de 350 segundos.
Experimentos científicos
Conheça abaixo os nove experimentos científicos brasileiros que estarão a bordo do foguete VBS-30.
Projeto: Girômetro de Fibra Óptica
Entidade: CTA
O objetivo do projeto é a nacionalização de sensores para aplicações aeroespaciais.O equipamento denominado Sistema Dinâmico de Vôo (SDV) é composto por dois sensores de rotação (giroscópios a fibra óptica), instalados com alinhamento segundo o eixo longitudinal (eixo de rolagem) do foguete. Cada um dos giroscópios foi desenvolvido para monitorar uma fase específica do vôo: um para medir as altas rotações que ocorrem durante a subida do foguete, e outro para medir a rotação residual durante a fase do vôo em ambiente de microgravidade.O objetivo não é exatamente monitorar o foguete, mas validar os giroscópios nacionais, cujos dados serão comparados com os dos giroscópios importados, instalados no sistema real de controle do foguete.Projeto: Avaliação dos mecanismos de reparação do DNA em ambiente de baixa gravidade
Entidade: UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro
A pesquisa visa estudar os mecanismos de reparação do DNA atingido por radiação cósmica ionizante e por raios ultravioleta. Os tripulantes da Estação Espacial Internacional estão sujeitos a níveis de radiação centenas de vezes superiores àqueles a que estão submetidas as pessoas no solo – em dois dias a dose de um tripulante atinge o valor máximo recomendado para um ano.A radiação ionizante torna-se, assim, uma das maiores restrições às missões de longa duração e à permanência de tripulantes no espaço por períodos muito extensos.O objetivo do experimento é verificar a capacidade dos organismos vivos em restaurar danos às moléculas de DNA causados pelos íons e raios ultravioleta. Embora essa radiação não seja letal, ela aumenta enormemente a chance de que os astronautas venham a contrair algum tipo de câncer no futuro.Projeto: Desenvolvimento do dispositivo DMLM II e análise da ação da invertase presente em células de Saccharomyces cerevisiae
Entidade: Centro Universitário da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial
O objetivo é estudar o desempenho das enzimas em microgravidade e qualificar um equipamento chamado DMLM (Dispositivo Misturador de Líquidos em Microgravidade (DMLM).O DMLM é um dispositivo de mistura, composto por uma parte mecânica e um circuito eletrônico controlador, que permite que dois líquidos diferentes se misturem de forma automatizada quando atingido o ambiente de microgravidade. A partir daí a parte eletrônica monitora toda a reação bioquímica que ocorre entre os dois líquidos.O principal objetivo da experiência é estudar a reação química da enzima invertase, muito utilizada na indústria alimentícia e farmacêutica. A invertase permite obter uma mistura de açúcares, formada por glicose e frutose, com um poder adoçante superior ao da sacarose (açúcar da cana e beterraba) e que não cristaliza facilmente.Os pesquisadores acreditam que a experiência permitirá otimizar processos industriais baseados em enzimas, reduzindo o tempo de reação e a quantidade de catalisadores utilizados, aumentando a produtividade da indústria.Projeto: Forno Multiusuário para Solidificação
Entidade: INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
O objetivo é o desenvolvimento de um forno espacial. Quando totalmente desenvolvido, o forno poderá ser utilizado para inúmeros outros experimentos em vários campos de pesquisas e poderá até mesmo ser utilizado na Estação Espacial Internacional.O experimento visa principalmente desenvolver o próprio forno. Para isso ele irá efetuar um teste de solidificação de uma liga de telureto de chumbo, um material semicondutor com importantes aplicações industriais, como a fabricação de sensores fotovoltaicos para células solares e lasers para a região do infravermelho termal.O FORMU-S é um forno tubular compacto que possui capacidade de solidificar múltiplas amostras de até 10 mm de diâmetro e 80 mm de comprimento. Na operação Cumã II ele será controlado e aquecido no solo através do cordão umbilical do foguete lançador. Após o lançamento, sua temperatura será mantida por inércia térmica e, no ponto desejado da trajetória em microgravidade, o deslocamento axial do forno será acionado por um sinal eletrônico para que a amostra passe a se localizar na região fria do forno, proporcionando um rápido resfriamento.Projeto: Evaporadores capilares
Entidade: UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
O objetivo da experiência é controlar a temperatura interna em um satélite artificial, um mecanismo fundamental para o funcionamento dos seus circuitos eletrônicos. Os pesquisadores esperam conseguir nacionalizar essa tecnologia, já que os satélites brasileiros hoje utilizam tecnologia importada para sua refrigeração.O aparelho testado é formado por dois evaporadores capilares montados em dois circuitos bifásicos com capacidade de transferência de calor de até 100 W, utilizando acetona como fluido de trabalho.
Projeto: Micro-tubos de calor para controle térmico de componentes eletrônicos de satélites
Entidade: UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
O experimento vai estudar os fenômenos térmicos e de transporte de calor e qualificar os microtubos de calor operando em ambiente espacial. Esses microtubos compõem um sistema de troca de calor de alta eficiência, semelhante aos utilizados nos computadores portáteis. Mas sua eficácia como dispositivo de transferência de calor em ambientes de microgravidade precisa ser comprovada, de forma a ampliar sua utilização para o controle de temperatura de componentes eletrônicos em ambientes espaciais.Em ambiente de microgravidade, o experimento deverá investigar o comportamento transiente, obtendo dados experimentais para validar o processo de fabricação de trocadores de calor à base de microtubos, dados estes que poderão ser comparados com os modelos matemáticos já existentes.
Projeto: Modulação da velocidade de propagação de onda de reação-difusão (B-Z) em meio gel por forças fracas (microgravidade)
Entidade: USP – Escola Politécnica e Universidade de Hohenheim
O material B-Z é um gel sintético que simula a textura e a densidade de organismos vivos. O experimento deverá ter grande impacto na área médica, principalmente no tratamento de enxaquecas, amnésia global transiente e epilepsia, que são síndromes funcionais do sistema nervoso central.Três câmeras digitais monitoram três amostras de gel, medindo a velocidade de propagação da onda sob interferência de forças eletromagnéticas e da própria microgravidade. A idéia é identificar as reações do material sintético B-Z, num modelo de reação inorgânica que simula a reação do organismo humano.
Projeto: Estudo de compostos híbridos pela difusão de nanopartículas metálicas de prata em vidro
Entidade: UFPE – Universidade Federal de Pernambuco
O objetivo é desenvolver materiais nanotecnológicos nacionais, principalmente compostos híbridos formados pela difusão de nanopartículas metálicas de prata em vidro. A partir deste experimento poderá ser avaliada a diferença de comportamento das nanopartículas no espaço e no solo, sob ação da gravidade.No experimento serão utilizadas três amostras com um total de 1 centímetro de comprimento, dispostas na forma de um sanduíche formado por três camadas de 2 milímetros de espessura cada, nas formas vitrocerâmica, vítrea e policristalina. A experiência ocorrerá no interior do forno FORMU-S.
Projeto: Computador de Bordo para o reconhecimento dos vôos de um foguete de sondagem
Entidade: UEL – Universidade Estadual de LondrinaO computador de bordo foi desenvolvido especialmente para veículos de sondagem como o VS-30. O equipamento consiste em uma unidade microcontrolada para a aquisição de dados de sensores inerciais e não inerciais, armazenagem e processamento em tempo real dos dados com a finalidade de reconhecer eventos que ocorrem durante o vôo, tais como: o lançamento, o momento quando o propulsor é desligado (término das queima para o caso de propulsores a combustível sólido), apogeu, início da situação de microgravidade, fim da situação de microgravidade, entre outros.
AEB apresenta Tecnologia que reduzirá custo dos Satélite Nacionais.
O Brasil está próximo de desenvolver uma tecnologia que vai baratear e tornar mais rápida a fabricação dos satélites nacionais. A Agência Espacial Brasileira (AEB) revelou as ações de construção de um módulo espacial que permitirá a construção de diversos satélites a partir de uma estrutura comum.Plataforma MultimissãoCom capacidade para sustentar até 280 quilos e voar em órbitas de altitude entre 600 e 1,2 mil quilômetros, o módulo é chamado de Plataforma Multimissão (PMM). Comparada ao chassi do satélite, essa plataforma cabe em vários tipos de foguetes lançadores e serve como base para os tipos mais variados de carga – seja uma câmera para monitorar os desmatamentos na Amazônia ou um equipamento para fazer previsões meteorológicas.”A principal vantagem da plataforma será trazer versatilidade aos satélites brasileiros”, apontou o engenheiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Mário Quintino, coordenador do Projeto Plataforma Multimissão. Segundo ele, outra melhoria trazida pela PMM será a redução de custos na fabricação de satélites, já que o novo módulo será sempre o mesmo, independentemente da carga acoplada a ele.Satélites nacionais
O engenheiro acrescentou que essa tecnologia é essencial para trazer agilidade ao programa espacial brasileiro, que pretende lançar um satélite por ano de 2010 a 2020. “Como a plataforma é desenvolvida separadamente em relação à carga, o satélite nacional se torna mais competitivo”, ressalta. Segundo ele, os satélites produzidos com a PMM podem ficar até dois terços mais baratos.
Entre as funções da plataforma estão a propulsão, o controle de altitude e a sustentação dos painéis solares que fornecem energia para o satélite.Do tamanho de uma caixa com um metro de lado, a primeira PMM tem previsão de ficar pronta em 2009. Desenvolvido pelo Inpe, em conjunto com indústrias e com o apoio da AEB, o protótipo da plataforma, disse Quintino, custará US$ 45 milhões. Depois de pronta, esse custo será reduzido a um terço.
Monitoramento da Amazônia
Ele informou que o satélite Amazônia 1, que deverá ser lançado em 2010 e servirá para monitorar a ação do homem na floresta amazônica, contará com a PMM: “Os novos satélites estão sendo desenvolvidos de acordo com as necessidades do país e o combate ao desmatamento na Amazônia é uma de nossas prioridades”.
A plataforma também será utilizada para carregar um radar que será acoplado a um satélite, projetado em conjunto pelo Brasil e pela Alemanha, que também atuará na vigilância da Amazônia. Diferentemente dos satélites fotográficos, que só conseguem registrar imagens de dia e com o céu limpo, o radar permite monitorar a floresta durante 24 horas. “Em testes com o radar pendurado em um avião, conseguimos detectar até uma mancha de óleo na água durante a noite”, destacou.
Sonda Fênix vai estudar gelo dos pólos de Marte
O destino é o gelo, ou melhor, a água. Fênix (ou Phoenix, no inglês) a próxima missão a Marte da Nasa terá o objetivo principal de procurar por sinais de condições favoráveis para a existência de vida no ártico do planeta, seja em algum momento no passado ou, quem sabe, atualmente.
Água em Marte
O lançamento está previsto para o dia 3 de agosto, em um foguete Delta 2. Ao invés de rodar por montes e crateras, a sonda Fênix explorará os solos gelados das planícies ao norte do vizinho terrestre. A sonda robótica será usada para investigar se a água congelada próxima da superfície, caso derretesse, sustentaria um ambiente em que possa existir vida.
“Nossa estratégia, para a exploração de Marte, de ?seguir a água? levou a uma série de descobertas importantes nos últimos anos a respeito da história da água em um planeta cujas similaridades com a Terra foram muito maiores no passado”, disse Doug McCuistion, diretor do Programa de Exploração Marciana da Nasa. “A Fênix complementará essa exploração estratégica, pois representa nossa primeira tentativa de tocar e de analisar a água marciana, presente na forma de gelo enterrado.”
O veículo orbital Mars Odyssey descobriu, em 2002, evidências que deram sustentação a teorias de que grandes áreas do planeta, incluindo as planícies árticas, contam com água congelada muito próxima à superfície.
Geologia planetária
“A Fênix foi projetada para investigar a história do gelo por meio da análise de como a água modificou a química e a mineralogia do solo”, disse Peter Smith, da Universidade do Arizona, pesquisador principal da missão. “Os instrumentos poderão verificar se o ambiente polar é uma zona habitável para micróbios primitivos. Para completar, a Fênix também monitorará o clima polar e a interação entre a atmosfera e a superfície.”
O veículo tem cerca de 1,5 metro de comprimento por 5 metros de largura, incluindo dois conjuntos de painéis solares dos lados. Um braço robótico com 2,3 metros será usado para perfurar a camada de gelo superficial – que os cientistas estimam ser bem fina.
Amostras do solo de Marte
O braço robótico capturará imagens e amostras, que serão analisadas por dois instrumentos contidos na Fênix. Um irá aquecer a amostra para analisar substâncias voláteis, como água ou compostos de carbono, substâncias essenciais para a existência de vida como a encontrada na Terra. O outro instrumento analisará a composição química do solo.
A Fênix também terá uma pequena estação meteorológica, para medir as variações climáticas no planeta durante a parte científica da missão, que deverá ser realizada em meados de 2008. Os cientistas responsáveis ainda estão decidindo qual será o local exato do pouso. Por enquanto, o favorito é um vale localizado em latitude equivalente à do Alasca na Terra.